Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
28 de fevereiro de 2006
24 de fevereiro de 2006

Um grupo de marginais adolescentes assassinou um homem, no interior do esqueleto de um prédio. Depois deitaram o corpo para dentro de um buraco. E foram-se embora.
A polícia está inclinada para a hipótese de "não ter havido premeditação". Estariam ali distraídos a atirar pedras a todo o que lhe parecesse esquisito e, nesse dia, resolveram fazer o gosto aos ténis e espancarem até à morte o homem que ali dormia. A rapaziada foi mandada para as barracas onde mora ou para as instituições que (segundo os relatos vindos a público no ano passado, e que já caíram no esquecimento) os metem a trabalhar e os enchem de porrada. Interrogados com severidade "só pararam para comer". São inimputáveis, claro. Com excepção do mais velho que já tem cu para ir para a cadeia.
Ainda bem que a fúria dos 13 adolescentes se virou contra um travesti, sem-abrigo e drogado.
Olha se tivesse sido contra uma pessoa com direitos...

Um amigo deu-me de presente a descoberta do samba do Zeca Pagodinho.
Quando as notícias são deprimentes, ou o dia nasceu cinzentão, eu tomo um comprimido desse cantor.
A música que me faz melhor tem o refrão que dá título a este post, continuando com "sou feliz e agradeço a vida que deus me deu".
E se a coisa não pegar, salto de faixa e junto-me à minha turma: "Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar!"
23 de fevereiro de 2006
Ia escrever sobre a dor muscular que me chateia há dias.
Mas depois lembrei-me que subi, a pé, a avenida Almirante Reis, ao anoitecer. Estava frio e o autocarro passava ao lado, mas vim a pé. Porque há vezes em que a alegria não cabe dentro de um carro. E até mesmo a pequena alegria precisa de ser passeada, como um lume que começa a acender e que se for soprado com delicadeza poderá aquecer numa noite escura.
Ia falar da dor no pescoço mas já não vou. Vou antes lembrar-me da brisa fresca a girar à volta da minha cabeça contente.
20 de fevereiro de 2006
Ainda bem que estamos muito longe do envolvimento entre a Religião e o Estado de muitos países muçulmanos.
O caso da transladação do cadáver da Irmã Lúcia é a prova disso.
As três televisões nacionais transmitiram em directo, o carregar dos ossos de uma suposta vidente. Racionalíssimo, portanto.
O meu amigo (digo "amigo", no sentido do afecto que tenho por ele e que espero recíproco) Tolentino Mendonça, belo poeta e homem sensato, defendia ontem, ou assim me pareceu, a necessidade de se olhar para Fátima como um fenómeno de fé; de iluminação interior de muitas pessoas. A bem da alegria e da harmonia universais. Ora, tudo o que venha melhorar o homem tem, naturalmente, a minha gratidão. Contudo, tenho alguma dificuldade em aceitar um movimento que nasce, obviamente, de uma fraude criada e perpetuada por um clero ansioso por manter o poder sobre as ovelhas. E que acrescenta a este pecado original um recolher alegre de milhões de euros anuais, livres de impostos, que vão parar sabe deus a que mãos e com que fins.
O homem que desenvolve a sua espiritualidade transcende-se? Certamente.
Mas não sobre os ossos de uma mentira.

17 de fevereiro de 2006
16 de fevereiro de 2006
A taróloga bem escreveu para o meu signo: "A carta é o Eremita. Tudo a andar para trás quando julga que vai para frente" (quer dizer, as palavras não eram bem estas... Eram até mais bonitas, que nisto da adivinhação por cartas e coscuvilhice cor-de-rosa tem nível e não se rebaixa com uma frase qualquer...).
Chego à noite depois de ter visto a casa que ia comprar (baratinha) ir parar às mãos de um malandro sem nome ( a quem, contudo, não desejo mal... Quanto muito, umas infiltrações inesperadas nos soalhos e, se não der muito trabalho à Providência, uma praga de ratazanas loucas...), de VÁRIOS condutores me terem tentado abalroar o carro e de ter visitado uns apartamentos dignos de Barbies com overdoses de Prozac.
Vou fazer uma sopa.
Ao menos, as nabiças da horta não me hão-de dar desgostos.
Talvez uma lagarta...
14 de fevereiro de 2006
Acabam de sair dois bons livros de amigos do Brasil.
ELES ERAM MUITOS CAVALOS, do mineiro (de Cataguases, claro) Luiz Ruffato, amigo da casa, e escritor empenhado em revirar a estrutura do romance, sai na Quadrante.

E de Porto Alegre, o amigo João Gilberto Noll, ataca com LORD, pela Palavra.
Os dois do melhor da literatura brasileira actual.
A procurar e comprar.
Esperemos que muitos outros autores brasileiros de valor, mas desconhecidos entre nós, se sigam.
O programa de governo também se mostra muito preocupado com os processos de avaliação no ensino secundário. De alunos e professores.
Não vi, foi uma linha que mencionasse o escândalo nacional de termos um corpo docente no ensino superior sem qualquer formação pedagógica. Em resumo, poderemos ter mestres formados em Harvard, mas que na prática, não percebem um boi do acto de ensinar. Não por fraqueza deles, mas pura e simplesmente porque ninguém pensou em lhes ensinar.
Há uma confusão de papéis que está (desde há vários anos) a minar o processo de ensino: o papel dos pais. Quando alguém refere que os pais devem "participar no processo educativo", está na verdade a dizer "ensinem os vossos filhos a serem pessoas, que os professores providenciarão outras competências. O que está a acontecer, na prática, é que grupos de pessoas que não têm mais nada que fazer passaram a entrar nas escolas, a pôr e dispôr e infernizar o já duro trabalho dos professores, com o consentimento apático, quando não a aprovação do Ministério da Educação. Casos aberrantes, como de pais que metem processos a professores que, detectando deficiências mentais, óbvias, em alunos, os tentam colocar em aulas com apoio acontecem. O problema é quando, por exemplo, no interior, um pai toma o reconhecimento da deficiência como um "fracasso" seu e age vingativamente contra o mensageiro.
Outros casos são mais simples e têm a ver com comportamentos marginais no interior dos recintos. Professores assistem à formação de gangs de adolescentes ociosos e desresponsabilizidados sem que possam fazer nada.
As associações de pais, são um lóbi crescente que serve os interesses dos vários governos. Basta olhar para o Orçamento de Estado para se ter uma noção da fatia que a Educação toma. Cortar na verba dispendida com os professores (era interessante analisar a percentagem gasta com funcionários do ministério de pessoal administrativo e de não-limpeza/não-guarda de putos das escolas...), aproveitando ainda para se vingar de uma classe que os chateou lá atrás, psicanaliticamente falando, é ouro sobre azul. Nunca ouço grupos de pais a dizerem que se estão a organizar para "ir trabalhar nas actividades extra-curriculares", por exemplo. Seria interessante, já que se empenham tanto...
Estamos a criar uma nação de iletrados, inúteis e marginais. E enfiar pais que não educam em casa mas que sabem imiscuir-se ignorantemente nas escolas, não vai ajudar.
13 de fevereiro de 2006
O Apoio Financeiro Selectivo à Escrita de Argumentos Cinematográfico (LM Ficção) de 2004, continua sem resultados. Anulado pelo actual Secretário de Estado da Cultura, que invocou "razões de ferimento do regulamento" (ao que consta, a vítima indignada que foi pressionar o secretário terá sido um certo insecto de peso na inteligentziazinha nacional...), dois anos depois, os argumentistas que viram os apoios ao seu trabalho congelados continuam à espera.
Outro detalhe interessante, num país que precisa de bons argumentos como do pão para a boca, foi o anúncio da diminuição de verbas para o referido concurso. É entendimento deste governo que os argumentistas "andam a ganhar muito". Numa actividade que, tal como tudo o que é criativo, não dá trabalho nenhum e faz-se com uma perna às costa... Para se ter uma ideia dos valores de um argumento numa longa metragem portuguesa, andam à roda dos 0,5 %. Com sorte. E primeiro que se apanhe o devido, upa, upa...
Este ministério é cada tiro, cada melro...
10 de fevereiro de 2006
9 de fevereiro de 2006

Petar Pismestrovic, Kleine Zeitung, Austria
Freitas do Amaral veio defender a posição de que insistir na provocação ao fanatismo religioso era fazer o jogo dos que querem ver a civilização ocidental desaparecer.
Faz sentido. Nós damos como adquirida a evolução da humanidade. Esquecemo-nos, nessa atitude, de que o Império Romano também acreditou na excelência do conhecimento. Só por curiosidade, relembro que se seguiram as "invasões bárbaras", seguidas de mil anos de trevas.
Talvez venhamos a pertencer, ao longo das nossas vidas, ao grupo de pessoas que vai assistir à queda de nossa civilização. Como atrás ficou dito, não seria a primeira vez na História.
ps: recomendo como bibliografia a saga Persépolis, a bd da Marjane Satrapi, sobre a mudança de regime na Pérsia (actual Irão).
Quando parece que não é possível ser tomada uma decisão mais cretina, neste "rectângulo abençoado por deuS" lembrou-se a Ministra da Cultura de nomear para o IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico - não me perguntem de onde diabo vem o "R"...), o Tomás Taveira.
(suspiro)
Bom, ao menos ficamos com a certeza de que as decisões, além de coloridas, ainda ficarão registadas. Para mais tarde lamentar.


ps: para os amigos que não conhecem Lisboa, aqui os dois MELHORES edifícios desenhados pelo seu gabinete de arquitectura.
8 de fevereiro de 2006

CARICATURAS
"Piquei" esta caricatura aos amigos do Marretas (que por sua vez a picaram na origem: www.filibustercartoons.com . Origem, digo eu, que isto das imagens na net, passa para cá e para lá, ganha novos contornos e no fim é, como diria o Vargas Llosa, "um striptease ao contrário").
A língua portuguesa tem muitas variantes. Aqui encontramos quem defenda uma delas. E de caminho promova a literatura que se faz em camoniano, mundo afora.
7 de fevereiro de 2006
"Olha que aquele gajo vai a fugir"
PUMMM! PUUMM!
A onomatopeia foi da shotgun do polícia que disparou contra um carro, numa rua de Lisboa. A frase foi a relatada por uma testemunha ocular que acrescentou que quando o homem embateu com o carro noutra viatura, depois de ter o vidro de trás desfeito com tiros, e saiu com as mãos no ar, ainda levou uma carga de porrada. A bordo seguiam duas crianças. Uma delas ficou ferida.
Relatório da polícia: "Um indivíduo tentou atropelar um agente, que disparou um tiro de aviso para o ar".
Voltou o tempo em que os GNRs abatiam manifestantes voadores.
Ok, pessoal, a companhia ACERT-Trigo Limpo emalou tudo e vai carregar o espectáculo baseado no meu romance, país afora.
Tomem nota das datas e dos lugares (por agora, actualizações no site da companhia):
SANTARÉM
Teatro Sá da Bandeira a 11, 12 e 13 de Fevereiro
SANTA COMBA DÃO
Casa da Cultura, a 11 de Março
VISEU
Teatro Viriato, a 16 e 17 de Março
COIMBRA
TAGV, a 30 e 31 de Março
GUIMARÃES
Centro Cultural VilaFlor, a 6, 7 e 8 de Abril
SÃO PEDRO DO SUL
Cine-Teatro, a 24 e 25 de Abril
LISBOA
Teatro Cinearte, a 28, 29, 30 de Abril e 1 de Maio
PORTO
Teatro Rivoli, a 6 e 7 de Maio
GUARDA
Teatro Municipal, a 13 de Maio
ESTARREJA
Cine-Teatro, a 20 e 21 de Maio
Se isto não é descentralização...
6 de fevereiro de 2006
Para início de conversa, tudo pode ser consultado, neste endereço. Assim, e ao contrário do que se costuma fazer, cada um poderá verificar as áreas que mais lhe interessar.
Parecendo, assim a olho, um orçamento que procura ser contido e com algumas ideias em áreas importantes para todos, comece-se por afirma que é a visão de um engenheiro. Ou seja, da mesma maneira que Cavaco Silva pensou o país, nos seus tempos áureos (e, julgávamos nós, idos) como o melhor caminho é a união de dois pontos por uma linha recta (esmagando o que estiver no caminho), também Sócrates tem áreas preferenciais facilmente relacionáveis com a sua formação e vivência. Não é por acaso que se está a estabelecer como bandeira, um "Plano Tecnológico" ou que um engenheiro americano é tratado com honras de papa. Mas enfim, poderia ser pior. Olha se tínhamos deixado passar o Santana Flops... Adiante.
Entre outras prioridades, destaco esta: "Ainda no sistema prisional é importante salientar a construção de uma Unidade Complementar no EP do Porto, bem como dar um forte impulso ao ?Plano de Erradicação do Balde Higiénico? em todo o sistema.". Pelo tom entusiástico, quando algum de nós lá for parar por delito de opinião, ao menos já vai ter um autoclismo para puxar.
Sobre o real valor da Cultura, basta olhar para os orçamentos dos ministérios. No fundo da lista, vem o MC. Terá um orçamento de (se bem entendi os números, mas a variação não há-de ser muita) de 189, 7 milhões de euros. Destes, 80 milhões são para pagar a funcionários (3325 pessoas). É com o que sobra que se vai apoiar as iniciativas. Se tomarmos como referência, os 12.583, 7 milhões de euros para as Finanças e Administração Pública ou os modestos 1.909 milhões de euros para a Defesa ( e não vou à Saúde, nem à Educação...) percebemos o país, culturalmente falando, que temos.
Mas, basta ver as propostas para a Política Cultural Externa, para entender que, de facto, não vale a pena investir muito. Entre outras prioridades pretende-se "dinamizar a imagem do Instituto Camões através de acções de marketing" ou "definir uma filosofia relativamente ao património luso construído no mundo".
Para o que vai fazer por cá, melhor será ler. Tal será a pouca relevância da coisa.
Assim de repente, ficamos com a ideia de que se juntou a fome com a vontade de comer. A incompetência da ministra e do seu (lobista) secretário de estado aliada a uma visão política que não sendo de adorno, também não é de progressão na qualidade mental dos portugueses.
5 de fevereiro de 2006
De uma coisa, não podem acusar o país: de ser pesado.
Depois do flagelo da literatura light (agora transformado no pesadelo da literatura histórico-fast...), e da cultura-light, que se avista na SIC (a Bárbara Guimarães a passear no meio de prateleiras cheias de livros a declamar Eugénio de Andrade mereceria um prémio. Não sei é bem qual...), chegou o Fado-Light.
Juro que não é pelo apelido abobalhado (embora ele já esteja tão socialmente em baixo que mais fundo só a China), mas a forma como avistei uma jovem cantora a retalhar a canção mais típica portuguesa deixou-me perplexo. Quase tão surpreendido como ver a cobertura que os media davam a uma caquinha daquelas...
2 de fevereiro de 2006

UM PROBLEMA NA CANALIZAÇÃO
Da multiplicidade de arguidos no caso de corrupção conhecido como "Apito Dourado", foi deduzida acusação contra apenas 29. Todos de Gondomar (nenhum do Porto, graças a Deus, que por momentos até se pensou que... Felizmente que Deus é Pai e, por isso...).
Na hora de apertar, a "Justiça" portuguesa faz como sempre, "não tem bem a certeza" se deve incomodar ou não. E os que provavelmente se encheram com dinheiro sujo, escapam-se pelo ralo do lavatório. Um, a um, vão sumindo, sumindo...
Se houver algum canalizador na sala, por favor, manifeste-se!
1 de fevereiro de 2006
Para quem acha que não há ligação entre o capital e o jornalismo faça favor de ler o gigantesco artigo do DN, precedido de chamadas alarmistas de capa, sobre as consequências da proibição do tabaco em locais públicos em Espanha. "PORTUGAL PERDE MILHÕES COM A LEI ANTITABACO ESPANHOLA" e "Fisco pode perder 90 milhões". Resumindo, a matéria chama a atenção para o GRAVE PROBLEMA que é o preço do tabaco ter descido em no país vizinho (para responder à concorrência da proibição) e a possibilidade daí decorrente de que os portugueses VÃO LÁ COMPRAR. Menos impostos, mais contrabando. O horror. São chamados a depôr no artigo, a Brigada Fiscal e até esse senhor inexplicável que está à frente do Conselho de Prevenção Contra o Tabagismo, Paes Clemente. Este senhor (o mesmo que veio afirmar, tempos atrás - baseado sabel Deus em quê - que apenas 19% da população portuguesa fuma, quando entra pelos olhos dentro que este número andará no mínimo próximo dos 50% ) mostrou-se "tranquilo". Tranquilo numa altura que se constatou que a lei proposta pelo anterior ministro da Saúde foi metida na gaveta e adiada até às calendas gregas. Tão tranquilo como a Tabaqueira que afirma condescendente que a lei já proíbe nos locais onde as pessoas são "obrigadas a ir", como Hospitais ou bancos. Não sei quanto é que o nosso "defensor" ganha, mas é demais. Nem que seja o dinheiro do passe do autocarro, dada a óbvia incompetência. Nem quanto é o salário de cada administrador da Tabaqueira. Mas quanto a estes últimos, estou "tranquilo", já que estes estão definitivamente a fazer o seu trabalho bem feito.
ps: também descobri o quer dizer a expressão "fumador passivo": somos nós, os bananas que levamos com o fumo e nos retiramos, pedindo desculpa de estar em espaços públicos.
